Cinerama


Seleção Não-Standad de filmes recomendados

VIOLÊNCIA GRATUITA (FUNNY GAMES)
Áustria, Direção de Michael Haneke, 1997.


Para a maioria, filme difícil de engolir, mas genial na sua condução. Contra toda a hipocrisia do cinema, dá um tratamento realmente notável ao tema da violência no cinema. Não é difícil perceber que tudo no filme é pretexto para “realizar” impulsos violentos do próprio expectador. Nesse sentido, aquele que for dotado de alguma sensibilidade, sequer conseguirá assistir o filme até o final. Tive uma experiência traumática com esse filme: na ingenuidade de jovem graduando, levei o filme para um curso sobre a violência no cinema que ministrei numa faculdade do interior de Goiás. Quem conseguiu acompanhar o filme (e isso era requisito para ganhar o certificado do curso), ficou indignado (não com o diretor, mas comigo).
O filme faz um jogo cinematográfico para que percebamos que violentos não são os filmes, mas nossos impulsos inconscientes, nossa sombra mandando avisos do “obscuro” mundo que subsiste dentro de nós. A grande cartada do filme: não há como torcer contra o bandido (não há motivações explícitas), não há muita empatia com as vitimas, não há fundo moral ou ético explicitado, não há convite a passividade (preste atenção, aliás, não preste atenção, na cena da televisão). Mas também não é um filme noir, onde o se descobre que o vilão não era tão vilão assim e que obscura é a natureza humana. Nesse filme, Haneke parece escolher o seu vilão: o espectador.


Escrito por Ricardo Orsini às 16h57
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Garotas do ABC - Decepção!!!


Garotas do ABC (2003)
Brasil, escrito e dirigido por Carlos Reichenbach, 2003.

Fui assistir ao filme do Carlos Reichenbach, Garotas do ABC, devido a uma crítica positiva que dele fizeram na TV (no noticiário local da Cultura). Aliás, o próprio Reinchenbach já seria motivo suficiente, mas só fiquei sabendo do filme pela TV. Devido ao teor da crítica, já sabia que não iria ao cinema para entrar contato com uma estética naturalista de telenovela, o que implicava numa atuação pouco preocupada em refazer artificialmente o imaginário da classe média sobre o que é a realidade (imediata). A estética da telenovela, tão bem explorada em filmes da Globofilmes, não daria a tônica nesse caso. Ponto a favor.
Também não fui esperando um tratamento estereotipado de temas tão difíceis: trabalhadoras, sindicalismo, região do ABC, violência, neo-nazismo. Nesse ponto eu me decepcionei.
Se não apela a estereótipos, pois esses temas são tão pouco explorados pela mídia brasileira, o tratamento é no mínimo apressado. Antes de apresentar o cotidiano das trabalhadoras de uma fábrica de têxteis, o filme dirige a atenção a uma garota suburbana apaixonada em Arnold Schwarzeneger e um tipo neo-nazista. Não consegui entender quais as motivações da garota no romance com o rapaz. A solução de par romântico para a garota, ao final do filme, é mais inexplicável ainda. Se sugere algum tipo de preconceito “negro” por parte da garota (ela não gostaria de pessoas da própria “raça”), então o filme realmente se perdeu.
A trupe neo-nazista, comandada por uma atuação estranhíssima de Selton Mello, não convence nem mesmo quando escuta idilicamente uma versão de um ópera de Wagner dentro do carro, prontos para cometer o seu ato derradeiro de destruição e morte.
A presença de um detetive/jornalista, que dá um ar de suspense e mistério ao filme, é dispensável ao ponto da sua personagem sumir no meio da trama, sem ao menos sabermos que fim (dramaturgicamente falando) lhe foi dado.
A impressão que fica, para quem só assistiu ao filme uma vez, diga-se de passagem, é a de que roteiro, direção e produção se apressaram demais para um tema tão complexo como o é a vida de trabalhadores e pequeno-burgueses brasileiros de uma região metropolitana.

Escrito por Ricardo Orsini às 16h46
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15/08/2004
Em, 14/08/04
Filme: “As Confissões de Schmidt” (About Schmidt).
EUA, direção de Alexander Payne, 2002. Com Jack Nicholson.

É incrível como Hollywood precisa conciliar todas as suas histórias. O filme consiste de uma lista sistemática de fracassos pessoais do vendedor de apólices de seguro Warren Schmidt. Todas as tentativas de resgatar um sentido para sua vida são fracassadas. Aposenta-se e é substituído por um funcionário mais jovem com conhecimentos em informática. Sua esposa morre. Sua filha está noiva de um típico perdedor americano vendedor de colchões. Descobre que seu pretenso melhor amigo teve um caso antigo com sua falecida esposa. É uma pessoa com uma dificuldade extrema de se socializar.

O primeiro grande pecado do filme: para convencer o expectador do infortúnio existencial da personagem principal, enche seu percurso de revezes, como numa comédia de erros. O leve toque de humor das situações tenta cobrir as inverossímeis seqüências desse tipo de situação. Segue-se o mais previsível: ele tenta se redimir de uma vida recheada de mediocridade fazendo uma peregrinação pelas estradas americanas num grande trailer. Procura em sua cidade de infância a casa onde havia nascido: ela foi substituída pelo progresso incansável americano – uma loja de pneus. Vai atrás da filha, para descobrir que mal a conhecia. Tenta impedir seu casamento e não consegue.

Um toque diferenciado do filme: a personagem principal não é um tipo anti-social esquizóide escolhido ao acaso. Não é mais um daqueles tipos estereotipadamente interpretados por Jack Nicholson (que, aliás, está bem no filme). A sua mediocridade tem toques sociais. A visita a museus e monumentos que tentam reconstruir uma suposta origem heróica do povo americano mostra bem o limite cultural de Schmidt para conseguir superar a mediocridade de sua vida. Parece-me uma tese bem marcada do filme: a incapacidade de resgate da própria história de vida vem marcada pela inserção da personagem numa cultura que não consegue resgatar sua própria história. Que sobrevive de museus de cera, de parques temáticos, de monumentos a heróis improváveis.

Dessa forma, as “causas” de sua mediocridade não podem ser encontradas apenas no indivíduo Schmidt, mas também no environment cultural americano, com suas opções de vida extremamente limitadas. Seus encontros com outras personas são sempre marcados pela melancólica constatação de que não há nenhuma saída possível. Mas não devido à limitações individuais, mas sempre à limitações de ambientes culturais (família desagregada, ambiente de trabalho desumanizado, um civilização que ignora a velhice).

O diretor tem o mérito de ter contido Jack Nicholson. Sua personagem, marcada pela solidão, medo e raiva, é contida e sensível, sem aquela arrogância e cinismo típico de um ator marcado pelo filme O Iluminado. É o que torna mais aceitável o final melodramático, onde ele se reconcilia (finalmente) através de uma carta e um desenho que recebe de um garoto africano que havia adotado num programa de ajuda a crianças órfãs. Seu choro final comove, mas fica a impressão de que o filme tramou uma armadilha narrativa: sucessivos fracassos, clima geral de mediocridade, impossibilidade de superação e – bimba – uma surpresa (atração final): de onde menos se espera, vem a salvação. Algo como: mantenha sempre a esperança. O filme faz a amarração narrativa com uma manipulação da atenção do espectador: ninguém espera redenção nenhuma, a personagem faz um discurso derrotista, volta desanimado para a sua casa (após a peregrinação inútil). Tudo para tornar o efeito final de redenção, com choro e tudo mais, ainda maior.



Escrito por Ricardo Orsini às 20h54
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Em, 25/08/04
Filme: Corra, Lola Corra (Lola Rennt, Alemanha, 1998, direção de Tom Tykwer).

Em 1999, organizamos uma mostra de cinema em vídeo na Filosofia. A mostra se chamava Cine Congestão (começava logo após o bandeijao do RU). O filme de estreia da mostra (que teve muitos mais outros) foi o Corra Lola. Eu lembro que na época todo mundo achou uma sensação, com aquele discurso de pós-moderno pra cá, visão ahistórica e fragmentária da existência para lá. Chegamos a fazer um debate no final do filme, e teses e mais teses foram defendidas.
Agora, reassistindo-o 5 anos depois, fica a impressão de que o filme, na verdade, é muito fraco, cinematograficamente falando e o seu roteiro padece do mau da reconciliação forçada (como o filme About Schmidt). Vale lembrar que, na última retomada da história, não se comete crimes, o namoradinho de Lola não comete assalto e ainda entrega a sua arma para um mendigo, ninguém morre e ainda sobra um dinheirinho extra sugerindo um final extra money feliz. Se o destino das personagens ocasionais dependia inteiramente do acaso (nas duas primeiras histórias), na última, os "bandidos" são sumariamente punidos (o pai de Lola sofre um acidente e morre, batendo no carro dos malhadões com cara de mau). Para coroar a punição, o motoqueiro que roubou a moto de Lola, no início do filme, também entra no acidente de carro do pai de Lola e parece morrer também.
Nada melhor do que o tempo para rejuvenecer uma avaliação.


Escrito por Ricardo Orsini às 20h52
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Histórico
17/10/2004 a 23/10/2004
26/09/2004 a 02/10/2004




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